viernes, 10 de abril de 2009


1.3 Estou dentro e o mundo parece um rumor. (RAMOS 1993: 17)


Aparentemente há mil motivos físicos para não construir as esculturas que penso, mas as penso e isto é cada vez mais importante. A sua possibilidade de existência física muitas vezes torna-se irrelevante diante da imagem criada por mim ou por outros ao ler e imaginar estas esculturas.


Este processo é constante no ato do artista contemporâneo, e possivelmente sempre foi: descrever uma obra para que outro a construísse, financiasse, cortasse, entendesse, enfim, para que de alguma forma, na colaboração, houvesse a materialização da obra.
Sempre tive especial atenção por estórias, relatos, descrição de sonhos ou reconstrução da cena mais interessante do filme por parte de uma pessoa. Percebo que existe a absorção da essência do objeto relatado por parte do relatador e é esta atitude (esta absorção) que desejo na observação das minhas obras. Entendo o ato de absorção por parte do relatador como uma interiorização que leva a pessoa à personificação. Este é o motivo principal que unifica os conceitos de escultura e performance no meu trabalho. Necessito desta atitude do público para que a comunicação aconteça. Essencialmente, todo o processo das minhas esculturas trata desta comunicação. Desde o início do meu processo tenho a percepção da obra primeiramente na construção imagética da mesma. Isto acontece nas minhas performances na hora da escolha dos materiais, local e preparação. Logo no “estar” na obra (dentro dela) e depois no relato das pessoas que observam. O estar dentro da obra, como foi o caso da escultura e performance “e como a forma”(2006), tornou evidente a efemeridade dos objetos e a potencialidade da descrição da mesma obra por inúmeros públicos, pois ao término das três horas e meia que permaneci na obra, ela volta a ser os materiais que tinha selecionado para a execução; e claro, o vestígio do corpo. Meu contato com a situação criada durante as três horas e meia foi através do som do público. Foi com estes sons que consegui construir sentido na situação específica da obra; eu era obra/performer e público do público simultaneamente. O público participa na construção de sentido, o público é performer também.



(As imagens: Registro da ação e como a forma, 2006. Vista de exposição. Pinturas de Ramon Martins no fundo.)

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